Há alguns anos eu estava conversando com uma colega de trabalho, que me falava da tristeza de ver a dificuldade e a frustração de seu marido por não encontrar uma recolocação no mercado de trabalho. Havia perdido o emprego já fazia meses, consultava o mercado regularmente, e muito raramente participava de uma entrevista, sempre sem sucesso. A economia brasileira ia mal, em especial o setor de construção civil, e este nosso amigo era engenheiro.

Até que um dia… fiat! Aconteceu! O rapaz foi finalmente contratado por uma empresa de médio porte, e imediatamente iniciou um novo ciclo em sua vida profissional. Algumas semanas depois da boa nova, eu perguntei a esta amiga como estavam as coisas, e ela me deu uma resposta que eu nunca mais esqueci.

Ela discorreu sobre algumas dificuldades iniciais da adaptação de seu marido à nova empresa, à cultura desta empresa, à velocidade das coisas e das pessoas, tudo muito hostil a ele que ficara meses fora do mercado de trabalho.

Em seguida, minha amiga me relatou muito orgulhosa que nada era maior do que a alegria deste rapaz ao acordar de manhã, tomar banho, se arrumar, vestir a camisa da empresa (sim, havia um “uniforme” para os Engenheiros!) e pendurar no pescoço o crachá daquela empresa. Coisas simples, que muitas vezes nem damos valor, mas que fazem um enorme bem a um ser humano.

Nesta parte da conversa, eu vi que a minha amiga falava com uma sinceridade cristalina: havia brilho em seus olhos, e naquele momento, o maridão era o seu herói!

Lembro que naquele momento eu cantei para ela um pedacinho de uma música do Gonzaguinha, que diz assim: “Um homem se humilha se castram seu sonho. Seu sonho é sua vida, e vida é trabalho. E sem o seu trabalho, o homem não tem honra. E sem a sua honra, se morre, se mata! Não dá pra ser feliz! Não dá pra ser feliz…”.

Damos um salto de 20 anos nesta história, e aqui estamos nós!

Lembrei desta conversa com muito carinho, com muita ternura, porque a empresa em que trabalho atualmente instituiu o uso do crachá para todos os funcionários no segundo semestre de 2015, e eu passei a usá-lo com um… digamos… um santo orgulho!

Sim, porque o crachá nos associa a uma organização, nos dá um sentimento de pertença, nos dá uma dignidade, nos identifica perante esta organização e também perante os stakeholders, e por isto eu considero que o simples e às vezes rejeitado crachá é de suma importância em nossas vidas. A minha amiga estava corretíssima, nos seus comentários de 20 anos atrás, naquela nossa conversa que tivemos.

Isto tem especial importância no início deste ano de 2016, em que a economia brasileira vai muito mal, rastejando na lama da recessão, que já vai se transformando em depressão, dado que os especialistas convergem na visão de que o PIB brasileiro só volta a se recuperar em 2018. Inevitável associar a recessão e o desemprego. Este indicador, que era um dos orgulhos da “nova matriz econômica” inventada sabe-se lá por quem (filho feio não tem pai), se deteriora rapidamente, e deve entrar no Ano Novo de 2016 com dois dígitos. (1)

Isto quer dizer que muitos brasileiros, muitos chefes de família, não importa se homens ou mulheres, perderão o direito de colocar no pescoço o crachá de uma empresa, humilhados que serão pela castração de seu sonho, e a perda de sua honra, como ensinou Gonzaguinha. E assim, já sabemos, não dá pra ser feliz!

Esta realidade já visitou a muitas pessoas, a muitas famílias, e mesmo em sala de aula, muitos Alunos vieram me avisar que haviam perdido seus empregos ao longo do ano de 2015. Sem emprego, sem renda; sem renda, sem poder de compra; sem poder de compra, sem investimentos na própria educação e formação. E sem esta formação, maiores serão as dificuldades para conquistar o direito de ostentar no peito o crachá de uma nova empresa.

Aos que já estão nesta triste condição de “sem crachá”, eu desejo que sejam verdade as palavras de todos estes especialistas em recolocação que utilizam diversos eufemismos, tais como “reinvente-se”, ou “use a sua criatividade”, ou “inove”, ou “faça uma transição de carreira”, etc. para dizer a você uma só coisa: “Se vira, meu irmão! Dá teu jeito! Corre atrás!”. Entenda: eles estão certos! Se você ficar parado, não vai conseguir nada! (2)

Para aqueles que, como eu (por enquanto… nunca se sabe!) podem continuar exibindo os seus crachás, desejo muita sorte e felicidades em 2016! Que a dor de uma demissão não visite a você, nem a ninguém de sua família neste ano! Todos os dias de manhã, quando sair de casa, agradeça a Deus por esta empresa que te deu este crachá! Vida longa a esta empresa, e também a este crachá, é tudo o que você pode desejar agora!

E se acontecer de castrarem o seu sonho, volte dois parágrafos, e recomece: lute! Lute para dar a volta por cima, e criar condições para a sua volta ao mercado de trabalho. Como continua nos ensinando o Gonzaguinha: “Guerreiros são pessoas tão fortes, tão frágeis. Guerreiros são meninos, no fundo do peito! Precisam de um descanso, precisam de um remanso, precisam de um sono que os tornem refeitos”.

Refeito, você parte pra luta, porque é a única opção viável! Nem que seja para ostentar no peito o crachá da empresa “Eu Mesmo”! Porque assim, eu tenho certeza, vai dar para ser feliz!

Felicidades, pois!

 

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