O jornal carioca O Globo publicou matéria no dia 20 de setembro de 2016 com o título “Colégio Pedro II extingue distinção de uniforme por gênero”, e subtítulo “A partir de agora não há mais determinação do que é ‘masculino’ e ‘feminino’”.

Foi tema de grande repercussão nas mídias sociais, com manifestações favoráveis ou contrárias a tal medida, alcançando um dos objetivos dos defensores da ideologia de gênero, que é o de estar presente na mídia para inocular e incentivar a revolução cultural que almejam.

Peço licença para analisar dois trechos da matéria original, reproduzindo os textos parciais que vou comentar à luz da chamada “Ideologia de Gênero”, a mais radical das ideologias, fundada no engano, na mentira, e que deixará em seu rastro uma sociedade de pessoas frustradas e infelizes.[1]

Vou concentrar meus comentários em dois tópicos: primeiro, na conceituação de alguns termos que são importantes para uma introdução ao tema da ideologia de gênero, e depois, na análise de como se deu o processo decisório neste caso específico, o que está de acordo com um dos pilares da ideologia de gênero, como verão mais à frente.

Logo no primeiro parágrafo temos a oportunidade de conceituar brevemente o que vem a ser a Ideologia de Gênero:

“Antes, a escola estabelecia as peças do vestuário destinadas aos meninos (uniforme masculino) e aquelas para uso das meninas (uniforme feminino). Agora, a escola traz apenas a nomenclatura “uniforme”, ficando a cargo dos alunos a opção por qualquer um deles”.

Todos nós temos uma identidade biológica-sexual que nos define como homens (sexo masculino, cromossomo XY) ou mulheres (sexo feminino, cromossomo XX), o que é cientificamente verificável. A Ideologia de Gênero considera que o sexo pertence a uma ordem puramente materialista cujo estudo cabe aos cientistas e técnicos da vida.[2] Ela ignora esta definição biológica, e promove a troca do conceito de sexo pela noção de gênero, que se utiliza de termos convenientes para disseminar uma nova linguagem tais como: “opção sexual”, “lesbianismo”, “direitos sexuais e reprodutivos”, “igualdade e desigualdade de gênero”, “empoderamento da mulher”, “patriarcado”, “sexismo”, “direito ao aborto”, “gravidez indesejada”, “tipos de família”, “casamento homossexual”, “sexualidade polimórfica”, “parentalidade”, “homofobia”.[3]

Em resumo, na visão dos ideólogos do gênero existe, sim, um sexo biológico, com o qual nascemos, mas ao mesmo tempo eles reconhecem que toda pessoa pode construir livremente seu sexo psicológico, ou sexo construído socialmente, ou simplesmente gênero. E mais: há uma clara separação entre o sexo e o gênero, com destaque para a absoluta insignificância do sexo. O que importa é o gênero. Podemos aqui se lembrar da escritora francesa Simone de Beauvoir: “Não se nasce mulher, torna-se mulher”.[4]

Sexo é, portanto, uma palavra que se refere às diferenças biológicas visíveis das partes genitais e da procriação entre macho e fêmea. Mas gênero é uma questão de cultura adquirida, construída, e se refere à classificação de masculino e feminino, ou qualquer outra coisa que se queira ser.[5]

Defendem os ideólogos de gênero que cada indivíduo pode construir e inventar a sua própria sexualidade, numa profusão de papéis que evolui incessantemente ao longo do tempo, podendo ser qualquer coisa que lhes vier à mente[6]. Isto nos dá a triste sensação de que era bem melhor quando estes mesmos ideólogos achavam que havia apenas sete gêneros “clássicos”, ou seja, sete papéis à escolha dos humanos: heterossexual, homossexual, lésbico, transexual operado, transexual não operado, bissexual e indiferenciado. Entendem eles que com este cardápio de papéis se pode facilmente escapar da armadilha que representa o modelo binário de conceber a realidade na esfera sexual.[7]

A autora da matéria informa que “a medida é importante para resguardar os alunos sofrem com a imposição de gênero colocada pela sociedade”, e destaca as palavras do Diretor:

“Procuramos de alguma maneira contribuir para que não haja sofrimento desnecessário entre aqueles que se colocam com uma identidade de gênero diferente daquela que a sociedade determina”.

Pode parecer que houve uma confusão aqui, mas criar confusão parece ser próprio dos que defendem a Ideologia de Gênero. O Aluno João, por exemplo, nasceu biologicamente homem, mas ele tem o direito de construir um gênero diferente para si, conforme defendem os ideólogos de gênero, mas a sociedade também pode determinar este novo gênero para o Aluno João, e por isto ele precisa ser protegido, conforme visão do Diretor, para que João não seja discriminado pelos demais Alunos quando estiver representando um papel não convencional (vamos considerar aqui o “convencional” seria João agir como homem, como pessoa do sexo masculino).

Segundo Jorge Scala “as minorias que se sentem advogadas por esta causa são apenas instrumentos inconscientes, e são usadas sem perceberem que, na verdade, militam contra si mesmas”.[8]

O que a direção do Colégio Pedro II faz, neste episódio é reafirmar a sua aprovação e alinhamento com a Ideologia de Gênero, reconhecendo que alunos homens podem usar o uniforme feminino, se quiserem, e que alunas mulheres podem se vestir com o uniforme masculino, se quiserem, e assim, fica mais fácil atender ao gênero de cada Aluno, para que ninguém se sinta desconfortável ou constrangido por se ver obrigado a usar um uniforme adequado ao seu sexo biológico, mas inadequado ao seu sexo construído, isto é, ao seu gênero.

Nas palavras do Diretor do Colégio, “propositalmente, deixa-se à critério da identidade de gênero de cada um a escolha do uniforme que lhe couber”. Lembre-se, porém, de que estamos falando de crianças[9] que frequentam o ensino fundamental e o ensino médio.

Esta posição da escola se manifesta em vários outros campos, e um deles é, por exemplo, nos cabeçalhos das provas e nos comunicados da instituição, que não são direcionados aos Alunos e nem às Alunas. São enviados aos “Alunxs”, que foi o termo escolhido para se referir às crianças que estudam ali, sem fazer referência ao gênero de cada um. Respeito à norma culta? Não, pois isto representa uma opressão, e é preciso estar aberto ao novo…

Passemos agora à análise do processo de tomada de decisão a favor da adoção do “uniforme genérico”, no qual chama a atenção esta informação dada na matéria:

“A instituição afirma que a decisão é resultado de um conjunto de mobilizações e discussões promovidas por alunos e professores em vários campi.”

Perceba que as discussões foram conduzidas entre Alunos (“empoderados”, com certeza!) e os Professores. Pais e responsáveis não foram ouvidos neste processo, é o que parece ter acontecido. Isto é consequência bem pensada e executada do feminismo marxista, que substitui a classe proletária, oprimida pela mulher; substitui a classe capitalista pelo homem; e substitui a luta de classes pela luta dos sexos. Mas não apenas isto: é preciso fazer uma revolução cultural, política, jurídica, filosófica, total![10]

De modo particular, a ideologia de gênero declara o seu ódio aos três “M” do universo das mulheres: M de Menstruação; M de Matrimônio; e M de Maternidade. Isto requer que se quebre todo o sentido de autoridade que há, e é necessário tudo fazer para libertar a mulher da tirania da biologia que a aprisiona em casa, a serviço do seu opressor (o marido) e os filhos. É o fim da família, como nós a conhecemos hoje! O Matrimônio passa ater o mesmo valor que a coabitação sem compromissos, as relações ocasionais, a prostituição, a homossexualidade, a pederastia, ou o bestialismo.

Vem daí o interesse dos defensores da Ideologia de Gênero em se apropriarem da escola, para construir a nova sociedade do futuro, moldando o comportamento das crianças e dos adolescentes pelos axiomas da ideologia, que vão aos poucos impregnando todo o universo que cerca as mentes em construção. E para isto, convém que os pais e responsáveis sejam mantidos afastados da escola, para que fiquem bem longe e não venham a atrapalhar a formação das consciências.

O que desejam não é o combate às discriminações, não é a proteção das minorias, mas sim a fabricação de um novo tipo de indivíduo, sexualmente amorfo, a ser configurado a esmo, e para isso transformam as escolas em laboratórios de dissolução psíquica das crianças. Enfim, um crime![11]

As forças que dão sustentação à agenda de gênero são muito poderosas, a começar pela ONU – Organização das Nações Unidas e seus questionáveis programas nesta área. A mesma ONU onde hoje, por nefasta coincidência, esteve pela primeira vez o Presidente brasileiro, Michel Temer. Em seu discurso de abertura da Assembleia Geral deste ano, falando sobre os direitos humanos, ele ressaltou a defesa integral da igualdade de gênero, e de outros postulados que atendem à agenda global comandada pela ONU, que recomenda fortemente que a doutrinação a favor da ideologia de gênero aconteça dentro das escolas, e quanto mais cedo, melhor.

Em muitas cidades brasileiras está em discussão o Plano Municipal de Educação e também o Plano Estadual de Educação, e os ativistas da ideologia de gênero estão mais ativos do que nunca, embora estejam enfrentando uma reação organizada e que tem conseguido importantes vitórias contra os ideais desta demoníaca ideologia. Isto porque foi proposta a introdução da palavra “gênero” no Plano Nacional de Educação através da PLC 103/2012, mas tal propositura não foi aprovada pelo congresso em 2013. Apesar disto, eles não desistiram, e estão tentando introduzir o conceito de gênero em nível estadual e municipal.

Se países como Noruega, Suécia, Dinamarca e Islândia, que há praticamente quatro décadas promoviam essa ideologia, estão voltando atrás, vendo que a experiência não é razoável e nem oferece ganhos sociais, por que nós deveríamos iniciar um processo que já se mostrou inválido? Por que deveríamos aceitar que uma ideologia sem bases razoáveis e em contradição com as mais renomadas pesquisas sobre o tema ditasse o modo de ver o homem e a sua educação em nossos planos municipais de educação? Precisamos reagir, e pressionar a câmara legislativa municipal e estadual para que não permitam que esta violência seja cometida contra as nossas crianças.

Encerro este texto reproduzindo a opinião do Padre Luiz Henrique Brandão de Figueiredo[12], para quem se não enfrentarmos esta realidade “então a estrada estará livre para que se usem materiais didáticos que ensinem nossos filhos que socialmente falando, não são homens ou mulheres, mas podem escolher qualquer opção sexual que quiserem e podem usar livremente de sua sexualidade. É urgente que todas as esferas da sociedade se manifestem, dentro da ordem e segundo as leis, contra a aprovação da palavra “gênero” nos Planos Municipais da Educação”.

[1] Scala, Jorge (Dr.) IDEOLOGIA DE GÊNERO, O NEOTOTALITARISMO E A MORTE DA FAMÍLIA. São Paulo, SP : Katechesis, p. 14.

[2] Bonnewijn, Oliver. Gender, quem és tu? Sobre a Ideologia de Gênero. Campinas, SP. Ecclesiae, 2015. p. 34.

[3] Scala, Jorge (Dr.) IDEOLOGIA DE GÊNERO, O NEOTOTALITARISMO E A MORTE DA FAMÍLIA. São Paulo, SP : Katechesis, p. 15.

[4] Beauvoir, Simone. O SEGUNDO SEXO.

[5] O lema da nova campanha da Barbie diz: “Você pode ser tudo que quiser”. Ver em http://exame.abril.com.br/marketing/noticias/comercial-da-barbie-traz-mensagem-feminista-para-meninas, acessado em 20/09/2016

[6] Há o caso de uma jovem norueguesa que aos 20 anos decidiu ser uma gata; de na França, o professor Karen Chessman afirma que “tem um cavalo dentro de mim”, e vive como tal; no Canadá um homem casado e pai de sete filhos decidiu assumir a identidade de uma menina de seis anos de idade, perturbação mental que já o levou a tentar suicídio duas vezes. Disponível em http://admrestauracao.com/default.php?pagina=blog.php&site_id=7388&pagina_id=136620&tipo=post&post_id=4.

[7] Bonnewijn, Oliver. Gender, quem és tu? Sobre a Ideologia de Gênero. Campinas, SP. Ecclesiae, 2015. p. 38.

[8] Scala, Jorge (Dr.) IDEOLOGIA DE GÊNERO, O NEOTOTALITARISMO E A MORTE DA FAMÍLIA. São Paulo, SP : Katechesis, p. 9.

[9] Segundo o Estatuto da Criança e do Adolescente, é considerado “criança” o cidadão que tem até 12 anos incompletos. Aqueles com idade entre 12 e 18 anos são adolescentes.

[10] Bonnewijn, Oliver. Gender, quem és tu? Sobre a Ideologia de Gênero. Campinas, SP. Ecclesiae, 2015. p. 24.

[11] Scala, Jorge (Dr.) IDEOLOGIA DE GÊNERO, O NEOTOTALITARISMO E A MORTE DA FAMÍLIA. São Paulo, SP : Katechesis, p. 9.

[12] http://paroquiauniversitaria.org.br/index.php/home/noticias/190-ideologia-de-genero-e-a-falacia-do-seu-fundamento